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    <title>Forem: Helder S Ribeiro</title>
    <description>The latest articles on Forem by Helder S Ribeiro (@helderubi).</description>
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      <title>Forem: Helder S Ribeiro</title>
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    <language>en</language>
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      <title>A distância das letras</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Tue, 05 Nov 2019 08:20:44 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/a-distancia-das-letras-l1i</link>
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      <description>&lt;p&gt;Por volta do ano 1000 da Era Comum, um rei inglês queria coletar mais impostos e resolveu fazer algo inédito (na Inglaterra pelo menos?): mandou gente para tudo quanto é buraco do país para registrar timtim por timtim quanta terra produtiva tinha, quantas pessoas, quantas cabras, ovelhas, arados, galinhas, porcos, e tudo o mais que pudesse ser de valor, e o que era de quem, para depois poder cobrar impostos em cima.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Registrou onde? Num livrão gigante (acho que era um só). O livro ainda existe, eu nunca vi foto, e como resolvi escrever tudo de cabeça sem consultar fontes nem nada, imagina um tomo de meio metro de altura de papel envelhecido com aquelas capas de couro e madeira.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Que valor tem o que é basicamente uma planilha velha nos dias de hoje? Muito valor! Até hoje antropólogos, historiadores, linguistas, economistas e estudiosos de todo tipo extraem desse livro informações sobre como era a sociedade na época, as origens de sobrenomes e palavras, o clima, e um sem número de outras curiosidades. É uma relíquia preciosíssima daquele país.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aí por volta da virada do milênio atual, o governo inglês resolveu comemorar “o livro de mil anos” criando uma versão atual dele, registrando para os próximos mil anos detalhes que pintassem um quadro equivalente da Inglaterra dos anos 2000.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Só que nos anos 2000 a gente tem coisa melhor do que papel, tinta, madeira e couro né? Vamos fazer a parada em estilo: comissionaram um monte de gente pra desenvolver uma super cápsula do tempo digital, com hardware, sistema operacional, software e mídia de armazenamento de última geração!&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Registraram um monte de dados sobre o país e, como cabe muito mais coisa numa mídia digital do que num livro, gravaram também relatos de gente comum do país inteiro sobre como eram suas vidas, etc.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Dezesseis anos depois, ninguém mais conseguia ler o Novo Livro Modernex de Mil Anos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;De-zes-seis.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Como isso minha gente??&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Foi mais ou menos assim: a mídia que usaram (algum tipo de HD ou CD-ROM ou algo assim) não era mais vendida. Não tinha mais drive pra ler. Acharam um drive, mas não tinha mais driver. O computador pifou, e não vendia mais um igual e ninguém fabricava mais. Emularam o computador, mas o sistema operacional customizado bambambam estava no HD de um dos programadores, que era de uma empresa terceirizada que fez o projeto, depois faliu, e ninguém tinha mais cópia. O que sobrou foi um complicado e caríssimo tijolo com dados inescrutáveis.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enquanto isso, em algum lugar, a velha planilha de papel seguia firme nos seus mil e poucos anos, legível por qualquer um com boa visão e conhecimento da caligrafia e linguagem da época.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Essa é uma história real e extrema que ilustra um problema enorme dos dias de hoje: a ameaça que os entendidos chamam de Idade das Trevas Digital (procure por Digital Dark Ages).&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;É extrema porque eles realmente se esforçaram para dar o maior tiro no próprio pé no menor tempo possível. Quem decidiu que fazer um &lt;em&gt;sistema operacional&lt;/em&gt; customizado só pra isso era uma boa ideia?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas mesmo que você grave tudo em formatos livres, usando software livre, hardware livre, tudo documentado e replicável, imagina que um grupo de sobreviventes do apocalipse zumbi climático nuclear ache seu pen drive daqui cem anos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nele está guardado tudo o que eles precisam para reconstruir a civilização e pararem de morrer aos 20 anos de fome e cólera. O que eles fazem?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Simples: é só construir uma cadeia global de produção e comércio com mineração e refino avançado de dezenas de elementos químicos raros e fábricas de semicondutores em escala nanométrica. E reinventar não só toda a computação do zero mas reproduzir, bug por bug, exatamente os sistemas operacionais, programas e formatos necessários na combinação certa para ler aqueles arquivos específicos. Não basta só reinventar talvez até algo melhor, tem que fazer engenharia reversa e emular tudo igualzinho era antes.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Essa é a distância entre os seus olhos e as letras.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pensa quanto tempo você precisa jogar Civilization pra chegar nesse ponto.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Basicamente todo o conhecimento gerado nas últimas cinco décadas (que é tipo 99% de todo o conhecimento da humanidade ever, pelo menos o científico) está guardado nesse fragilíssimo castelo de cartas digital, com a exceção de algumas cópias em papel de um bilionésimo de um bilionésimo da informação relevante, concentrados em duas dúzias de bibliotecas e museus nacionais espalhados pelo mundo (com sorte mais bem cuidados que o do Rio de Janeiro).&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Papel rasga fácil, dá traça, mofa, é pesado, espaçoso, e tem uma atração obscena por fogo, mas quando ele sobrevive, o que ele tem a dizer está ali a um ricochete de fóton de distância do seu olho nu. Zero intermediários.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Por isso eu virei um arquivista amador e estou fazendo um bunker epistemológico de papel. Eu dou preferência a livros que ajudem a construir, refutar ou validar conhecimento, em vez de os que só registram o que já foi descoberto sem descrever como redescobri-los do zero. Mas qualquer coisa que você achar importante vale. Compre livros, presenteie livros, guarde e preserve livros, mesmo os que você nunca vai ter tempo de ler na vida. (Se você quiser.)&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pode não ser um apocalipse. Pode ser uma Revolução Iraniana, uma caça às bruxas, ou o Jeff Bezos deletando remotamente cópias de 1984 dos Kindles de todo mundo contra sua vontade (aconteceu). Algum dia, em algum lugar, alguém pode te agradecer ao encontrar a última cópia sobrevivente no formato mais resiliente e &lt;em&gt;visível a olho nu&lt;/em&gt; já inventado pela humanidade.&lt;/p&gt;

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      <category>backups</category>
      <category>storage</category>
      <category>lessonslearned</category>
      <category>ptbr</category>
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    <item>
      <title>Desmiopia</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Mon, 04 Nov 2019 08:20:19 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/desmiopia-2a59</link>
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      <description>&lt;p&gt;Existe um jeito previsível e replicável de deixar uma pessoa instantaneamente mais burra e impulsiva do que a grande maioria dos seres humanos: coloque-a num estado mental de escassez.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;De tempo, de dinheiro, de amigos, qualquer tipo de escassez. Não precisa nem &lt;em&gt;haver&lt;/em&gt; uma situação de escassez de fato. Só de você fazer a pessoa &lt;em&gt;imaginar&lt;/em&gt; uma situação de escassez já faz com que ela perca na média uns 13 pontos de QI, o que é quase um desvio padrão inteiro.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A média de QI é 100 e o desvio padrão é de 15 pontos. Isso quer dizer que se você é uma pessoa normalzinha de tudo (i.e. mais inteligente que 50% da população) e de repente perde 13 pontos de QI, você fica menos inteligente que 80% das pessoas. Num estalar de dedos!&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Você também perde uma quantidade enorme do que chamam de “função executiva”, que é a capacidade de controlar impulsos e agir deliberadamente. Você exagera na comida ou bebida, compra coisas que não deve, e sai dando patada em todo mundo e tomando más decisões.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Como faz essa mágica? Olha como é simples:&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No livro &lt;strong&gt;Escassez&lt;/strong&gt; , de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir, eles fazem um (entre vários outros) experimento com pessoas separadas aleatoriamente em grupos demográfica e financeiramente idênticos. Para o grupo A eles fazem uma pergunta do tipo “seu carro quebrou e vai ficar 100 reais pra consertar, o que você faz?” e pro outro fazem a pergunta “seu carro quebrou e vai ficar 1000 reais pra consertar, o que você faz?”&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A resposta que a pessoa dá é irrelevante. O lance é o valor, que é a única coisa que muda nas duas perguntas. Depois que a pessoa responde, eles aplicam um testezinho de QI.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Para um outro grupo C, eles só aplicam o teste de QI, sem fazer a pergunta antes.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O pessoal que respondeu a pergunta dos 100 reais se sai benzaço. Nenhuma diferença dos que não pensaram na pergunta.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas o grupo B, que teve que pensar (por um instantinho!) de onde tiraria 1000 reais imprevistos de repente, tomou uma surra! Uma sugestãozinha de nada e perderam na média os tais 13 pontos de QI.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Que preocupações com falta de dinheiro, de tempo, de contato social, etc. causem estresse, distração e ocupem a cabeça não é nenhuma super descoberta. Mas o &lt;strong&gt;tamanho enorme do impacto&lt;/strong&gt; e o &lt;strong&gt;tamanho minúsculo do estímulo&lt;/strong&gt; necessário me deixou de queixo caído. Os autores também.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O livro é fascinante e importantíssimo, daqueles que “todo mundo deveria ler”. Sério, vai mudar sua vida. Mudou a minha, recentemente.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No post anterior, eu falei sobre como resolvi encerrar o meu “sabático” não remunerado de trabalho no Keykapp.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O que não falei é que eu ainda tinha uns 6 meses de economias e estava pensando em ficar pelo menos mais uns 4 trabalhando no projeto.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas mesmo antes de ler o livro eu já vinha notando uns pensamentos de ansiedade aparecendo aqui e ali.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Várias coisas que eu estava estudando para o Keykapp não eram diretamente “marketáveis”, e eu tinha conseguido o cliente anterior (que foi o meu único cliente desde que comecei a freelar) meio que na sorte. Não tinha um portfólio e reputação muito fortes para conseguir novos clientes internacionais que pagassem tão bem.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Será que dois meses são suficientes? Será que eu já não devia ir voltando a estudar coisas populares e facilmente freeláveis tipo React, JavaScript, Gatsby em vez de Rust, Lua, tmux, zshell e neovim?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aí depois que eu li o livro vi que o problema era bem maior do que eu tinha dimensionado. Mesmo começando a procurar 2 meses antes eu estaria, com o prazo tão apertado e o dinheiro contado, &lt;em&gt;significativamente&lt;/em&gt; menos capaz cognitivamente justo no momento em que eu precisaria dar um gás nos estudos, incrementar portfólio, fazer entrevistas e projetinhos de teste, etc. E talvez pela impulsividade adicional e pela proximidade da água na bunda eu aceitasse a primeira oferta e acabasse pegando algo pior do que eu conseguiria no meu estado normal.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;E isso tudo é a parte previsível. E se a economia global der uma guinada negativa? E se eu ou alguém da família ficar doente e aparecer de repente uma despesa grande? E se meu computador pifar do nada?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em vários dos estudos que eles mostram no livro, o evento chave que leva pessoas a entrar numa espiral viciosa de dívidas e atrasos é a combinação de um “susto” com a falta do que eles chamam de “folga”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A folga é uma reserva &lt;em&gt;líquida&lt;/em&gt; que você pode usar numa emergência. Se seus recursos estão todos imobilizados, mesmo que você tenha terreno, casa ou fundo de pensão, a hora que vem o susto você não tem o dinheiro na mão, aí pega um empréstimo no impulso sem considerar direito os juros, aí pagando os juros falta dinheiro pra outra coisa prevista que você esqueceu porque estava mais burro ou pra outro susto que aparece logo depois, aí você pega outro empréstimo pra pagar aquilo, e assim por diante. Sair disso, com as limitações cognitivas envolvidas, é &lt;em&gt;muito&lt;/em&gt; mais difícil (eles também quantificam quão difícil, e é muito mesmo).&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A mesma coisa serve para o tempo. Mesmo com grana líquida em mãos ou seguro contratado para os sustos mais comuns, se naqueles dois meses der qualquer zica (uma gripe forte de duas semanas, um parente doente, um potencial cliente que sai de férias e para de responder), eu estou no sal.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Então pensei quer saber, eu já fechei um ciclo importante no projeto, não ia conseguir produtizar e comercializar tudo nesses quatro meses mesmo, e já estava nos planos trabalhar remuneradamente mais um tempo, juntar dinheiro e fazer sabático umas quantas outras vezes de qualquer jeito. Então vou proteger ferrenhamente essa folga que eu tenho e começar a fazê-la crescer logo em vez de usá-la até chegar na reserva.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Também não vou entupir a agenda de projetos de clientes. É melhor pegar 20-30h por semana, juntar dinheiro mais devagar, e ter uma margem de tempo para absorver imprevistos, estudar, cuidar da saúde e fazer investimentos do que ficar a uma estimativa errada ou qualquer outro susto de uma espiral de atrasos e noites varadas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Eu ia dizer “tranquilidade não tem preço”, mas tem sim, já mediram, e é absurdamente maior do que o valor que a gente normalmente dá.&lt;/p&gt;

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      <category>scarcity</category>
      <category>finance</category>
      <category>career</category>
      <category>ptbr</category>
    </item>
    <item>
      <title>O plano B</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Sun, 03 Nov 2019 08:20:08 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/o-plano-b-42ig</link>
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      <description>&lt;p&gt;Semana passada eu resolvi terminar o meu “sabático” de trabalho no Keykapp.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O Keykapp é um teclado assistivo que eu venho projetando e pesquisando faz uns 5 anos, e depois de juntar uma grana com freelas eu decidi tirar uns meses para fazer um primeiro protótipo e tirar a coisa da cabeça.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Um benefício que eu não falei do lance de “externalizar cognição” é que tem coisas que ficam te pentelhando pra você não esquecer, e isso tira concentração e consome recursos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No livro Getting Things Done, o autor fala desse alívio que vem quando você pega tudo, absolutamente tudo que tem pra fazer na vida, todas as pendências e coisas adiadas, e põe pra fora em um lugar onde o seu cérebro sabe que você vai ver de novo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Até você fazer isso, ele fica jogando a peteca pra cima constantemente, com medo de você deixar de cumprir aquele compromisso. E isso cansa, estressa, e diminui sua capacidade de concluir as coisas e tomar boas decisões, o que só faz com que você tome mais tempo para fazer as coisas que faria mais rápido com a mente limpa, o que faz com que mais afazeres atrasados se acumulem na cabeça.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No caso do Keykapp, não era tanto um compromisso como uma obsessão, um negócio que eu sabia que dava pra fazer, que ninguém estava fazendo, e que eu queria muito que existisse. Cada conhecimento novo que eu aprendia eu comparava com o projeto guardado na minha cabeça, pensando “hm, isso aqui dá pra usar no Keykapp”, e ia atualizando e refinando o design.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas você não sabe se está só viajando em cima de uma fantasia ou se tem algo real nas mãos até botar pra fora, mexer, manipular, e ver se a realidade bate com as suas expectativas, se as suas premissas faziam sentido mesmo ou não.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Então lá pra julho ou agosto eu terminei um projeto com o meu cliente, até então recorrente, e falei que não ia pegar mais coisas pra fazer por ora.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Fazer um primeiro protótipo foi mais fácil do que eu pensava, em parte graças a eu já vir escolhendo o que estudar e que freelas pegar de acordo com o que seria bom aprender para depois usar no Keykapp.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;E, para minha enorme alegria, eu não estava viajando na maionese e muito do que eu imaginava se provou de fato válido e útil. O protótipo era lento, mínimo, e tinha um monte de coisas faltando, mas o cerne da ideia saiu exatamente como eu pensava.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Tem um esquema nos celulares Android e iOS que permite você usá-los apenas piscando os olhos. Ele tem um foco retangular que vai passando de um botão ou coisa clicável na tela ao outro, parando um pouquinho em cada um, e quando ele chega no que você quer, você pisca e ele clica.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Imagina digitar desse jeito. Ele mostra o teclado qwerty padrão do celular, e vai passeando de uma tecla para a outra, em ordem: q, w, e, r… Em cada uma ele fica algo tipo um segundo, o que dá na média uns 15 segundos para digitar cada letra. Eu tentei usar isso por um tempo e quase arranquei os cabelos de tão lento. Essa é a única voz que muitas pessoas com vários tipos de condição têm, e é honestamente ridículo que empresas do calibre do Google e da Apple achem que isso é o melhor que dá pra fazer.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Eu testei o mesmo esquema com o Keykapp, e é uma coisa que você tem que ver pra sentir o tamanho da diferença. Eu sou suspeito pra falar, mas sem brincadeira, não tem nem comparação. O Keykapp ganha de lavada.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Obviamente não é porque eu sou mais inteligente ou criativo do que todos os engenheiros e designers da Apple e do Google, porque eles não estão todos trabalhando nisso, e duvido que eles realmente pensem que isso é o melhor que dá pra fazer. Acessibilidade é uma camada de tinta que colocam ao final como uma formalidade para atender a regulamentações, não algo que é pensado desde o começo e define os fundamentos em cima e em torno dos quais todo o resto é construído.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Se não tem pelo menos um bilhão de potenciais consumidores, é um mercado pequeno demais para empresas desse tamanho. Isso é o que o Eliezer Yudkowsky chama de “equilíbrios inadequados” no seu livro &lt;em&gt;Inadequate Equilibria&lt;/em&gt;. Dá pra fazer melhorias enormes com poucos recursos em problemas negligenciados o suficiente.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enquanto eu estava desabilitado pela LER, eu queria ter um plano B caso a situação fosse irreversível e eu não conseguisse mais usar o computador normalmente. E nessa pesquisa eu fui revendo tudo, descendo camada por camada até chegar ao interruptor que manda o bit do teclado para o computador, e reimaginei todo o resto para extrair o máximo do que esse um botão poderia fazer, para então generalizar para mais botões a partir de primeiros princípios.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esse medo de ficar incapacitado e me ver obrigado a usar essas coisas medonhas que existem hoje foi o que sustentou essa obsessão na minha mente por todo esse tempo. Ver a coisa na minha frente funcionando me trouxe um alívio que não tem como descrever, além da realização enorme de ter posto em prática um impulso criativo e feito algo realmente novo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Agora eu sei que se acontecer alguma coisa com meu corpo que me ponha de volta naquela situação eu tenho para onde correr, e essa segurança não tem preço.&lt;/p&gt;

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      <category>disability</category>
      <category>entrepreneurship</category>
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      <title>A impressora 3D de hábitos</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Sat, 02 Nov 2019 08:20:26 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/a-impressora-3d-de-habitos-5ckc</link>
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      <description>&lt;p&gt;Tem um cara chamado BJ Fogg que é pesquisador do “Departamento de Tecnologia Persuasiva” de Stanford.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ele é famoso por pesquisar formação de hábitos e infame por ensinar empresas do Vale do Silício e ao redor do mundo a viciar seus usuários.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Antes de descobrir o lado vilão dele, eu descobri o site Tiny Habits que ensina o método de criação de hábitos dele e tem um esqueminha simples de acontabilidade (?) por email para ajudar a começar.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A parte crucial pra mim é o lance de você começar com algo &lt;strong&gt;tão fácil que é impossível não fazer&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Exemplo: em vez de colocar “fazer 50 polichinelos todo dia”, você põe “fazer 1 polichinelo por dia”. Exageradamente, ridiculamente fácil.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Tipo, não tem desculpa pra você não fazer. Toma 2 segundos, não cansa, não precisa pôr roupa de ginástica, tomar banho depois, nada. Dá pra enfiar em qualquer lugar do dia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A sacada é você separar os objetivos. Tem o objetivo concreto, que pode ser “melhorar o cardiovascular”, “perder peso”, whatever, e tem o &lt;em&gt;metaobjetivo&lt;/em&gt;, que é criar e solidificar o hábito em si. Esquece o primeiro, foca no segundo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Depois que você já tiver feito ininterruptamente o hábito com sucesso por N dias (ele recomenda cinco, eu acho bom mais), &lt;em&gt;aí sim&lt;/em&gt; você aumenta.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aliás, aumenta não, &lt;strong&gt;cria um outro micro-hábito do zero&lt;/strong&gt; , encadeado ao primeiro. Esse é o segundo pulo do gato.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Se você simplesmente edita o hábito inicial para, digamos, “10 polichinelos”, você fica com um “tudo ou nada” muito grande. Se não dá pra fazer todos os 10 algum dia por qualquer motivo, você falha no hábito, se sente um fracassado e perde o momento que vinha acumulando. E piora quando viram 20, 30, até chegar nos 50 que você queria.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Então você mantém o micro-hábito de 1 polichinelo, e usa ele como gatilho do próximo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;“Depois de fazer o polichinelo 1, eu faço o polichinelo 2” é o novo hábito que você empilha em cima do que já estava lá. Se um dia não dá para fazer o hábito 2, você ainda consegue fazer o hábito 1: “depois que eu [insira o primeiro gatilho aqui, tipo ‘levanto da cama e ponho o pé no chão’], eu faço 1 polichinelo”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;“Mas desse jeito vai demorar demais pra chegar nos 50!”&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Tem que pensar a longo prazo. Bons hábitos são para toda a vida, e o benefício é cumulativo. Depois de 30 anos fazendo 50 polichinelos todo dia, 50 semanas são um preço irrisório a pagar pelo resultado.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;E conforme você vai ganhando confiança e depositando camadas fininhas uma em cima da outra, você pode aumentar aos poucos o tamanho de cada incremento, adicionando 2 por semana, ou mais, sabendo que se der merda você simplesmente volta ao degrau anterior, em vez de despencar até o chão.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O segredo é desfrutar do senso de completude mesmo com o pequeno feito regularmente. O que destrói hábitos são as expectativas exageradas e a culpa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quando você menos esperar, você vai olhar pra baixo e ver que está em cima do seu próprio Grand Canyon de propositalidade, cada camadinha ainda visível e admirável.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;É bem melhor do que uma rocha cristalina: fácil de moldar sem estilhaçar a coisa toda em pedaços.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O nome do hábito que escrevi no aplicativo everyday que eu uso para esta newsletter é “hitSend”. Não comecei esta versão pública com 1 palavra, mas venho fazendo em papel e lápis há meses e agora tenho confiança suficiente de que consigo manter uma versão online.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ainda assim, se um dia o céu estiver em chamas e eu não achar tempo, eu abro o celular, digito “Um ótimo dia pra vocês”, aperto Send, e saboreio a autossatisfação do dever cumprido do mesmo jeito.&lt;/p&gt;

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      <category>life</category>
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      <category>ptbr</category>
    </item>
    <item>
      <title>O que não cabe na cabeça</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Fri, 01 Nov 2019 08:20:22 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/o-que-nao-cabe-na-cabeca-4kco</link>
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      <description>&lt;p&gt;Tem uma coisa parte óbvia e parte mágica que descobri esses tempos atrás. Chama-se “externalizar cognição”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aprendi o nome lendo o livro Teaching Tech Together, que é sobre ensino de programação. Excelente o livro, aliás, recomendadíssimo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esse é um daqueles casos em que você pensa “eu já sabia disso”, mas de alguma forma quando alguém dá um &lt;em&gt;nome&lt;/em&gt; pra coisa, as ideias relacionadas se aglomeram em torno daquele novo núcleo na cabeça, e ele vai atraindo coisas novas quando você aprende e relaciona com ele.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No caso, “externalizar cognição” é basicamente escrever e desenhar. Pegar algo que está na sua cabeça e botar pra fora no mundo físico de alguma forma que você possa olhar de fora. Aí você consegue juntar com outras coisas também externas, fazer relações, etc. que não faria antes. Você “reifica” o conceito, onde “res” é latim para coisa: é a coisificação do pensamento.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Por que isso ajuda? Um motivo é que a nossa memória temporária é limitadíssima. De acordo com estudos mais recentes, parece que a gente consegue lembrar de 4 a 6 “coisas” na cabeça de uma vez só. Palavras, números, conceitos pequenos ou grandes.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aí como é que você pensa na sétima coisa e relaciona ela com a primeira? Não dá, porque para a sétima entrar alguma tem que sair. Ok, pode não ser sempre a primeira que sai, não é em ordem, mas a ideia é essa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Um jeito de lidar com isso é o que chamam de &lt;em&gt;chunking&lt;/em&gt;. A gente agrupa conceitos em abstrações de mais alto nível, e aí dá para pensar em “corpo humano” e ocupar só uma das 4-7 posições. Não dá para pensar em cada órgão individualmente tudo de uma vez.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pra “chunkear” (agrupar) as coisas às vezes é preciso ver um monte delas juntas até a gente perceber algum padrão. Aí a gente usa papel, computador, pincel, etc. pra pôr as coisas pra fora coisificadas. Ainda dá pra prestar atenção em poucas de cada vez, mas aí elas não se perdem quando a gente tira o olho de uma e foca em outra. Dá pra ficar indo e voltando e traçando relações até sair a coisa que a gente está querendo pensar.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Meio óbvio né? Nada novo, também.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esses dias eu estava lendo Pedagogia do Oprimido do Paulo Freire por indicação de uma amiga, e ele fala justo disso em relação à alfabetização. Bem bonito o jeito que ele descreve esse “despertar” que acontece quando você passa a conseguir ver seu mundo e a si mesmo em terceira pessoa, manipulá-los em símbolos, transformá-los, ver as diferenças entre o real e o reimaginado, e começa a pensar em como levar o que está ao que pode ser.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Por isso que escrever não é só pra dizer o que você já tinha pensado em dizer. É pra pensar o que não cabe na cabeça.&lt;/p&gt;

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      <title>What is your COBOL?</title>
      <dc:creator>Helder S Ribeiro</dc:creator>
      <pubDate>Fri, 19 May 2017 23:14:24 +0000</pubDate>
      <link>https://forem.com/helderubi/what-is-your-cobol</link>
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      <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;small&gt;Photo: &lt;a href="https://www.flickr.com/people/24205142@N00?rb=1"&gt;Erik Pitti&lt;/a&gt;&lt;/small&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;That’s a question I’ve been asking myself recently as I’ve thrashed around looking to settle on a stack for my next project.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;COBOL is that unsexy old thing that pays $350/hour to those brave and experienced enough to still have familiarity with it. It is &lt;em&gt;legacy&lt;/em&gt; code wrangled these days by "&lt;em&gt;maintenance&lt;/em&gt;" programmers. (I actually saw this used as a derogatory term by some fool who probably makes less than $350/hour.)&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Most of the time I’ve spent programming to date was with tools I took pleasure in using. Sure, there was some Java, some C, but the majority of it was with sweet sweet Ruby and Rails. ♦️🛤️&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;The times have changed though, and I don’t feel too confident in that duo anymore.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;I’ve always liked the backend more, and particularly ran away from JS like the devil. But, though I hate to admit it… JS, you’re my COBOL.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A weird type of COBOL, that’s for sure. One that has a baggage of legacy, quirks, and facepalms aplenty, while &lt;em&gt;also&lt;/em&gt; being so cutting edge that people’s brains &lt;a href="https://medium.com/@ericclemmons/javascript-fatigue-48d4011b6fc4"&gt;stall and hurt&lt;/a&gt; from pure paradox of choice.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;But it is the language of my time. The number one most popular programming language on the planet. The undisputed queen of the open web 👑. And the one most likely to put a roof over my head for decades to come with the most flexibility.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;To some it’s Java, others PHP. I’m going to park my horse right here under this JS tree 🌵. (You can start a song with that.) I’ll weather the framework tides, accumulating scars and wisdom, and have you – my handy sledgehammer of sparse finesse and begrudging appeal – always by my side.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;That doesn’t mean stagnation, though. Quite the opposite. Knowing my footing firm, I’ll be free to risk further into learning and making: programming- &lt;em&gt;and&lt;/em&gt; business- wise. 🏌️&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;I won’t pretend I love you, JS, but I will honor your place as the breadwinner. 🍞&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;And after a hard day’s work, I’ll rest you carefully in my toolbox, and let my fancy fly for &lt;a href="https://twitter.com/search?q=elmlang"&gt;anything but you&lt;/a&gt; ;) 🆓&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;That is my COBOL. What’s yours?&lt;/p&gt;

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